O peso volta mesmo? O que os estudos mostraram
Essa é a dúvida que mais recebo no consultório desde que as canetas ficaram populares. E ela tem resposta com número, não com achismo.
O estudo STEP 1 acompanhou 1.961 adultos com obesidade durante 68 semanas de tratamento com semaglutida. A perda média foi de 17,3% do peso corporal. Um resultado excelente, melhor do que quase tudo que existia antes.
Só que o estudo não terminou ali. Os pesquisadores suspenderam o tratamento e continuaram acompanhando essas pessoas por mais um ano. Um ano depois de parar, dois terços de todo o peso perdido tinham voltado.
Um segundo estudo, o SURMOUNT-4, testou a pergunta contrária: e se a pessoa não parar? Foram 36 semanas de tratamento com tirzepatida, com perda média de 20,9% do peso. Depois disso os participantes foram divididos em dois grupos, sem saber em qual estavam:
- Quem continuou o tratamento perdeu mais 5,5% no ano seguinte
- Quem passou a receber placebo recuperou 14% do peso
Repare no desenho do segundo estudo. Ninguém sabia se estava recebendo o remédio ou placebo. Mesma cabeça, mesma motivação, mesma intenção de manter o resultado. O que mudou foi a fisiologia.
Quando o freio do apetite sai, a fome volta. E ela volta bem antes do peso.
O que a balança não conta: parte do que sumiu era músculo
Agora a parte que quase ninguém comenta, e que é exatamente onde eu entro como nutricionista.
No mesmo estudo STEP 1, uma parte dos participantes fez exame de composição corporal, que separa o que é gordura do que não é. O resultado: das 17,32 kg perdidas em média, 6,92 kg eram massa magra. Isso é cerca de 40% de tudo que a balança marcou a menos.
Vale um cuidado aqui, para eu não vender uma história pior do que ela é. Massa magra não é só músculo: entra água, glicogênio, tecido de sustentação. E perder um pouco de massa magra é esperado em qualquer emagrecimento, inclusive no feito só com dieta. Não existe emagrecer tirando exclusivamente gordura.
O problema não é perder um pouco. É a proporção e a velocidade com que isso acontece.
Uma revisão publicada na Obesity Reviews colocou esse número em perspectiva. A perda de massa muscular observada nesses tratamentos, ao longo de pouco mais de um ano, é da mesma ordem de grandeza do que uma pessoa perde naturalmente ao longo de 20 anos de envelhecimento, depois dos 30.
Vinte anos de perda muscular concentrados em pouco mais de um ano. Sem treino e sem proteína suficiente para compensar.
Por que perder músculo é justamente o que faz o peso voltar
Músculo é um tecido caro. Ele consome energia mesmo quando você está parado, dormindo, assistindo televisão. Quanto mais músculo você carrega, mais o seu corpo gasta sem você fazer nada.
Quando você perde músculo, esse gasto de repouso cai. E aí a armadilha se monta sozinha:
- A fome volta poucas semanas depois da última aplicação
- Você volta a comer como comia antes
- Mas agora o seu corpo gasta menos do que gastava antes de você começar
O resultado não é só engordar de novo. É engordar mais rápido do que você engordou da primeira vez. E o que volta é gordura, porque gordura o corpo repõe com facilidade. Músculo não volta sozinho: ele exige estímulo e proteína.
É por isso que existe gente que volta exatamente ao mesmo número da balança e se sente pior do que estava antes de começar. O número é o mesmo. O corpo, não.
Por que o segundo ciclo quase nunca rende como o primeiro
Essa pergunta aparece cada vez mais: "fiz de novo e não emagreci igual".
Faz sentido fisiológico. Se a pessoa fez um ciclo, perdeu músculo junto, parou e reganhou gordura, ela não voltou ao ponto de partida. Ela recomeça de um corpo com menos massa muscular e mais gordura do que tinha antes do primeiro ciclo.
Menos músculo significa menos gasto de energia. A mesma restrição de comida rende menos resultado. E como a composição corporal já está pior, o segundo ciclo tende a tirar ainda mais músculo que o primeiro. É assim que o efeito sanfona vai piorando o terreno a cada volta.
Um cuidado com essa parte: isso é raciocínio fisiológico apoiado no que se sabe sobre composição corporal e no que eu vejo em consulta. Até onde eu conheço, não existe um estudo desenhado especificamente para medir ciclos repetidos de caneta. Prefiro deixar claro onde termina o número e começa a leitura clínica.
O que está no seu controle enquanto você ainda está usando
Até aqui falei do que acontece. Agora vamos ao que dá para fazer, que é o que realmente muda o resultado lá na frente.
1. Proteína em toda refeição
Esse é o ponto mais negligenciado do tratamento inteiro.
Quando a fome some, a proteína é a primeira coisa a sumir do prato. E não é coincidência. Carne enche, exige mastigação, demora. Com o apetite baixo, a pessoa naturalmente migra para o que desce fácil: um café, uma fatia de pão, uma sopa, uma bolacha de água e sal ou de maisena.
O prejuízo é duplo. Come pouco, e come pouco justamente do nutriente que protege o músculo.
A quantidade certa é individual. Depende do seu peso, da sua função renal, de quanto você treina e da fase do tratamento. Não é um número que eu consiga colocar num artigo sem errar com alguém. O que eu posso afirmar é a direção: nessa fase a necessidade de proteína sobe, exatamente quando a vontade de comer proteína desce.
2. Treino de força, não só caminhada
As diretrizes de atividade física recomendam trabalho de força em pelo menos dois dias por semana, envolvendo os grandes grupos musculares: pernas, quadril, costas, abdome, peito, ombros e braços.
Caminhada é excelente e deve continuar, faz bem para o coração e para a cabeça. Mas ela não entrega ao corpo o recado de que aquele músculo precisa ser mantido. Quem dá esse recado é a carga.
Durante um emagrecimento rápido, o treino de força deixa de ser complemento e passa a ser o que decide quanto do peso perdido vai sair de gordura e quanto vai sair de músculo.
3. Comer o suficiente, não o mínimo que a fome permite
Tem uma armadilha silenciosa aqui. A caneta permite que você coma quase nada sem sofrer. E quanto menos você come, mais rápido o ponteiro desce.
O problema é que quanto mais agressiva a restrição, maior a fatia de músculo dentro do que você perde. A pessoa comemora a velocidade e paga a conta um ano depois.
E não é só de músculo que se trata. Quem come muito pouco durante meses também reduz a oferta de vitaminas, e a B12 é uma das que eu mais peço nessa fase. Escrevi um artigo inteiro sobre a deficiência de vitamina B12, que é silenciosa e costuma demorar anos para dar sinal.
4. Construir o hábito agora, não depois
Esse é o mais importante e o menos empolgante.
Aprender a montar um prato, organizar a compra da semana, resolver o almoço no trabalho, saber o que fazer num rodízio ou num aniversário: tudo isso é muito mais fácil de aprender com a fome sob controle. Depois que ela volta, aprender vira luta.
A janela que a caneta abre, e o que você faz com ela
Se você guardar uma frase deste artigo, guarde esta: a caneta não entrega resultado, ela entrega uma janela.
Durante o tratamento você tem uma coisa que talvez nunca tenha tido antes: fome sob controle. Isso é raro e é valioso. É a melhor fase da sua vida para construir hábito, porque pela primeira vez a comida não está gritando com você.
Quem entende isso usa a janela para montar uma rotina que continua de pé quando o remédio sair. Quem não entende usa a janela só para ver o número cair, e quando ela fecha não sobra nada além do peso voltando.
Não é a caneta que decide o seu resultado final. É o que você constrói enquanto ela está agindo.
Perguntas que eu mais recebo
"Quanto tempo depois de parar o peso começa a voltar?"
O apetite volta bem antes do peso. Muita gente percebe a fome mudar já nas primeiras semanas depois da última aplicação. O peso vem depois, de forma progressiva. Nos estudos, um ano após a suspensão, dois terços do que tinha sido perdido já estava de volta.
"Posso comer de tudo enquanto estou tomando?"
Pode. Mas o ponto não é o que você está proibido de comer, é o que você está deixando de comer. Com a fome baixa, o risco não é exagerar, é faltar. Faltar proteína, faltar variedade, faltar comida de verdade.
"Só caminhada resolve ou preciso de musculação?"
Caminhada não substitui. Se você só puder acrescentar uma coisa à rotina durante o tratamento, escolha o treino de força. É ele que protege o que você não quer perder.
"Vou precisar tomar para sempre?"
Essa não é uma pergunta para o nutricionista, é para o médico que prescreveu, e a resposta muda conforme o caso. O que eu posso dizer é o que está do meu lado: quanto melhor a alimentação e o treino durante o uso, maior a chance de o resultado se sustentar depois.
"Já parei e engordei tudo de novo. Perdi tempo?"
Não perdeu, mas dessa vez o plano precisa ser diferente. Recomeçar do mesmo jeito tende a dar o mesmo resultado, com o agravante de que agora o seu corpo tem menos músculo do que tinha antes. Antes de pensar em um novo ciclo, vale avaliar composição corporal e exames para saber de onde você está partindo de verdade.
Escrevi um guia prático só sobre a parte que este artigo mostrou ser decisiva: como organizar a proteína, o que fazer com os desconfortos, hidratação e 17 ideias de refeições para quem está com o apetite baixo.
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Sou pós-graduado em nutrição clínica, nutrição esportiva e exames laboratoriais. Se você está usando ou pensando em usar, eu monto a parte que decide o resultado depois: comida, proteína e preservação de músculo.
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Os números deste artigo vêm dos estudos abaixo. Os links levam ao trabalho original, caso você queira conferir.
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022;24(8):1553-1564. doi:10.1111/dom.14725
- Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. doi:10.1001/jama.2023.24945
- Mechanick JI, Butsch WS, Christensen SM, et al. Strategies for minimizing muscle loss during use of incretin-mimetic drugs for treatment of obesity. Obes Rev. 2025;26(1):e13841. doi:10.1111/obr.13841
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou prescrição individualizada por profissional habilitado. Não inicie, ajuste nem interrompa qualquer medicamento por conta própria com base neste texto. A decisão sobre o uso de canetas é do médico que acompanha o seu caso.
Nutricionista clínico e esportivo · CRN3 65694
Pós-graduado em Nutrição Clínica, Nutrição Esportiva e Exames Laboratoriais, com certificação ISAK em antropometria. Atende em São José dos Campos, Caçapava e online, com cardápio montado junto com o paciente e leitura de exames como parte da consulta.
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